quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Máscaras

Desenho: Stencil | Cores: Tinta spray | Efeitos e Textura: PhotoshopCC

A imagem deste post apenas ilustra um momento de reflexão, apenas pretensões artística, foco em design e/ou comunicação visual, o texto de Vinícius de Moraes ajudou a lhe da forma, e sugeriu cores!


A máscara da noite

Rio de Janeiro
Sim, essa tarde conhece todos os meus pensamentos 
Todos os meus segredos e todos os meus patéticos anseios 
Sob esse céu como uma visão azul de incenso 
As estrelas são perfumes passados que me chegam... 

Sim! essa tarde que eu não conheço é uma mulher que me chama 
E eis que é uma cidade apenas, uma cidade dourada de astros 
Aves, folhas silenciosas, sons perdidos em cores 
Nuvens como velas abertas para o tempo... 
Não sei, toda essa evocação perdida, toda essa música perdida 
É como um pressentimento de inocência, como um apelo... 
Mas para que buscar se a forma ficou no gesto esvanecida 
E se a poesia ficou dormindo nos braços de outrora... 

Como saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo 
Nesse entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas? 
Orvalho, orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo 
Faz-se surgir diamante dentro do sol! 

Lembro-me!... como se fosse a hora da memória 
Outras tardes, outras janelas, outras criaturas na alma 
O olhar abandonado de um lago e o frêmito de um vento 
Seios crescendo para o poente como salmos... 

Oh, a doce tarde! Sobre mares de gelo ardentes de revérbero 
Vagam placidamente navios fantásticos de prata 
E em grandes castelos cor de ouro, anjos azuis serenos 
Tangem sinos de cristal que vibram na imensa transparência! 

Eu sinto que essa tarde está me vendo, que essa serenidade está me vendo 
Que o momento da criação está me vendo neste instante doloroso de sossego em mim mesmo 
Oh criação que estás me vendo, surge e beija-me os olhos 
Afaga-me os cabelos, canta uma canção para eu dormir! 

És bem tu, máscara da noite, com tua carne rósea 
Com teus longos xales campestres e com teus cânticos 
És bem tu! ouço teus faunos pontilhando as águas de sons de flautas 
Em longas escalas cromáticas fragrantes... 

Ah, meu verso tem palpitações dulcíssimas! - primaveras! 
Sonhos bucólicos nunca sonhados pelo desespero 
Visões de rios plácidos e matas adormecidas 
Sobre o panorama crucificado e monstruoso dos telhados! 

Por que vens, noite? por que não adormeces o teu crepe 
Por que não te esvais - espectro - nesse perfume tenro de rosas? 
Deixa que a tarde envolva eternamente a face dos deuses 
Noite, dolorosa noite, misteriosa noite! 

Oh tarde, máscara da noite, tu és a presciência 
Só tu conheces e acolhes todos os meus pensamentos 
O teu céu, a tua luz, a tua calma 
São a palavra da morte e do sonho em mim!

Fonte da Poesia - Site Vinícius de Moraes 
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